Vítor Péon: Um Pioneiro da Banda Desenhada Portuguesa
Raízes Africanas e Vocação Artística
Vítor Péon nasceu em Luanda, Angola, a 3 de abril de 1923. Apesar da independência angolana em 1975, sempre se considerou português, mantendo uma ligação profunda à sua terra natal, que descrevia como fonte de liberdade e inspiração telúrica. Desde cedo, demonstrou interesse pelas artes visuais, influenciado pelas esculturas africanas e pela natureza envolvente. Aos cinco ou seis anos já desenhava intensamente.Aos dez anos, mudou-se para Portugal, onde o pai, oficial do Exército, o matriculou na Escola Marquês de Pombal com o objetivo de o tornar serralheiro mecânico. No entanto, aos treze anos, o contacto com a revista O Mosquito despertou-lhe uma paixão definitiva pela banda desenhada.Formação e Primeiros Passos
Ainda adolescente, trabalhou na parte litográfica da Bertrand, Irmãos, Lda., e depois como boletineiro na Rádio Marconi, onde criou o seu primeiro jornal de parede. Realizou uma exposição com cópias de imagens da Branca de Neve e desenhos técnicos de aviões e tanques, muito populares na época. A sua dedicação ao desenho levou-o a obter boas notas na disciplina, apesar das dificuldades em matemática.Carreira Internacional
Péon trabalhou no estrangeiro em várias fases da sua vida. Esteve na Bélgica, onde colaborou com um agente, e depois em Londres e na Escócia, onde produziu histórias para editoras como D.C. Thompson e Fleetway. Criou narrativas policiais, westerns, histórias românticas e infantis, com títulos como Buffalo Boy, Long John Silver, Laughing Pirate e Jungle Teacher. Em Fleet Street, teve o seu próprio estúdio e aprofundou os estudos de cinema, incluindo animação, trucagem e imagem real.Cinema e Pintura
De regresso a Portugal, fundou um estúdio de cinema publicitário, onde produziu dezasseis filmes com técnicas inovadoras, incluindo o modelo tridimensional. A sua primeira grande exposição em Lisboa foi considerada uma manifestação de "Pintura Nova", fruto de uma pesquisa interior independente das correntes internacionais.Paris e o Regresso
Após cinco anos em Lisboa, mudou-se para Paris, onde trabalhou em Yataca, um herói da selva inspirado em Tarzan. Apesar de não considerar esse trabalho marcante, valorizou a experiência técnica e espiritual. Regressou a Lisboa com novos projetos, incluindo álbuns de Tomahawk Tom, Saa, Rex e Benedict Jr.Legado e Reflexão
Vítor Péon acredita na liberdade criativa como essência do verdadeiro autor de banda desenhada. Reconhece o papel de pioneiros como Eduardo Teixeira Coelho, Fernando Bento, José Ruy, Jayme Charraz, José Baptista (Jobé) e Carlos Alberto, valorizando a diversidade de estilos e contribuições para o panorama português.Sobre o futuro da BD em Portugal, expressa preocupação com os custos gráficos e o poder de compra dos jovens, defendendo a necessidade de apoio institucional para garantir continuidade e expressão artística livre.Conclusão
Vítor Péon é uma figura incontornável da banda desenhada portuguesa. Com uma carreira marcada pela inovação, internacionalização e paixão pela imagem, deixou um legado de liberdade criativa e dedicação à arte sequencial. O seu percurso inspira gerações de autores e leitores, reafirmando o valor cultural da BD em Portugal e além-fronteiras.