René Hausman foi um dos mais singulares e poéticos autores da banda desenhada belga, conhecido pelas suas aguarelas exuberantes, pelo domínio absoluto da representação animal e pela profunda ligação ao folclore das Ardenas. A sua obra atravessa contos, fábulas, fantasia e natureza, sempre com um traço expressivo e uma sensibilidade quase mítica.
Cresceu entre a Bélgica e a Westfália, onde o ambiente rural e as histórias tradicionais contadas pela família moldaram o seu imaginário. Desde cedo mostrou talento para o desenho, copiando autores como Calvo e recebendo orientação do pai de Maurice Maréchal, criador de Prudence Petitpas.
Aos 18 anos, abandonou os estudos para se dedicar inteiramente ao desenho. A sua vida mudou quando conheceu Raymond Macherot, que o incentivou e o apresentou a Yvan Delporte, editor da Dupuis. Este encontro abriu-lhe as portas da revista Spirou, onde Hausman se tornaria uma figura marcante.
Primeiros trabalhos e afirmação
Le Moustique e Spirou
Em 1957, durante o serviço militar, publicou as suas primeiras pranchas humorísticas em Le Moustique. Em 1958, entrou definitivamente na revista Spirou, onde criou:
Entre 1959 e 1973, tornou-se o grande ilustrador naturalista da revista, produzindo fichas, contos, histórias curtas e material pedagógico.
Obras marcantes
Laiyna (anos 1980)
Criada com Pierre Dubois, esta série de fantasia sombria consolidou Hausman como mestre da aguarela e do imaginário feérico. Inclui álbuns como La Forteresse de Pierre e Le Crépuscule des Elfes.
Les Trois Cheveux Blancs (1998)
Com argumento de Yann, é uma fábula poética e melancólica, muito elogiada pela crítica.
Le Prince des Écureuils (1998)
Também com Yann, reforça o seu estatuto de ilustrador animalista excecional.
Les Chasseurs de l’Aube (2003)
Obra totalmente da sua autoria, regressando ao universo pré-histórico que o fascinava desde Saki et Zunie.
Le Camp-volant (2008)
Evocação da Ardenne antiga, inspirada nas histórias contadas pela sua avó.
O período final
Na coleção Signé (Le Lombard), publicou:
Em 2016, pouco antes da sua morte, retomou Chlorophylle, personagem criada pelo seu amigo Macherot, com o álbum Chlorophylle et le monstre des trois sources.
A sua última obra, La Mémoire des pierres, ficou inacabada e foi publicada postumamente em 2017.
Estilo e temas
Hausman era frequentemente descrito como um artista “instintivo”, profundamente ligado à terra, às florestas e aos animais — daí o epíteto Bardo das Ardenas.
Legado
René Hausman deixou uma obra vasta e profundamente pessoal, que influenciou ilustradores, naturalistas e autores de fantasia. A sua fusão entre tradição oral, natureza e imaginação continua a ser celebrada em exposições, reedições e estudos sobre a BD belga.